MPF investiga autorizações de mineração no Maciço do Urucum que ameaçam habitat da harpia
Inquérito apura se o Imasul dispensou aval prévio do Ibama em licenças para extração de ferro em Corumbá, área de reprodução do gavião-real
Corumbá — O Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil para apurar suspeitas de irregularidades em autorizações ambientais emitidas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul). As licenças concedidas a mineradoras autorizaram a supressão de vegetação no Maciço do Urucum, área que serve de habitat e refúgio reprodutivo para a harpia (Harpia harpyja), ave também conhecida como gavião-real e considerada a maior águia do planeta.
O foco central da investigação é verificar se o órgão ambiental estadual liberou o desmatamento sem a anuência prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). De acordo com a Lei 11.428/2006, intervenções em remanescentes de Mata Atlântica superiores a 50 hectares em área rural — ou a três hectares em perímetro urbano — exigem obrigatoriamente a validação da autarquia federal antes de qualquer deliberação estadual.
As permissões sob análise foram emitidas nos anos de 2023, 2024 e 2025 para viabilizar projetos de extração de minério de ferro. Além do Imasul, o procedimento investigatório inclui as empresas LHG Mining Corumbá S/A, Vetria Mineração S.A. e 3A Mining S.A.
A apuração ganhou tração após uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) confirmar a presença de ninhos ativos da espécie na região. Classificada como quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e listada como ameaçada de extinção nos autos do MPF, a harpia possui áreas de caça que coincidem diretamente com os polígonos de expansão minerária autorizados pelo Estado.
Diante dos indícios, a portaria ministerial determinou o prazo de 15 dias para que o Imasul apresente a cópia integral dos processos administrativos. A administração estadual terá de justificar os critérios técnicos adotados para dispensar a manifestação do Ibama e esclarecer se foram conduzidos estudos específicos sobre a presença dos ninhos nas áreas concedidas. O órgão ambiental não se pronunciou sobre o caso.
No Maciço do Urucum, pesquisadores acompanham um casal de harpias há cerca de dez anos. O monitoramento registrou a localização de um ninho em julho de 2025 e o nascimento de um filhote em novembro do mesmo ano em uma estrutura alternativa, fato que confirmou a reprodução da espécie no Pantanal sul-mato-grossense.
Conforme explica o biólogo Gabriel Oliveira, integrante da equipe de monitoramento, o gavião-real possui comportamento recluso e depende de territórios contínuos de floresta entre 20 e 35 quilômetros quadrados por casal. Com envergadura que atinge 2,20 metros, a ave tem um ciclo reprodutivo longo — a incubação dura 56 dias e o filhote demanda cuidados parentais por até dois anos —, o que limita a reprodução a intervalos médios de três anos e torna a população local altamente vulnerável à perda de cobertura florestal.
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